Companheira de aventuras, parceira nos momentos difíceis e nos momentos de maior alegria. É cardápio completo de sensações e serve como recompensa, alívio, punição e, às vezes, satisfaz até o desejo que as meninas comportadas e de família foram ensinadas a não sentir.

Acompanhada do clássico “eu mereço”, parece até que ela acalma e ‘cuida’ perfeitamente.

A comida é versátil, não retruca, não ignora, responde na hora que a gente quer, nunca tá de mal humor, não tira satisfação, não discute relação.

Dá prazer sem preliminares, na hora que a gente chama e na velocidade que a gente quiser.

É com ela que muitas vezes a gente fantasia e marca encontros no fim do dia – em casa, na padaria, no mercado, na sorveteria -, tem aquelas despedidas dignas de amor bandido ju-ran-do que é a última vez, mas. nunca. é.

Com ela, a gente não tem medo de ser abandonada, trocada, traída. Ela é fiel, nos aceita como somos, não nos julga, é quase como se nos abraçasse e fizesse a gente se sentir compreendida”.

Eu já acreditei em cada palavrinha escrita aí

Eu achava mes-mo que tinha um caso de amor com a comida. Claro que eu não tinha toda essa clareza na época, não conseguia expressar, mas era assim que eu me sentia.

Era um relacionamento abusivo com a comida… uma relação de amor e ódio, é tipo homem quando o boy é lixo, mas a gente não desapega.

Mas, de novo, eu não sabia nada disso na época. Achava que era mesmo pela saúde. cof, cof, cof, que estava me cuidando, que emagrecer era mesmo condição pra ser feliz.

Eu estava na estatística de mulheres que romantizam um relacionamento abusivo e sei que depois de anos desse jogo que eu chamo de O Jogo da Comida, eu romantizava mesmo (!) minha relação com a comida. Sinto tristeza por saber que a comida foi isso pra mim, que não tinha “força” pra me acolher sem precisar dela, mas alegria por ter despertado, aprendido a fazer diferente e hoje poder conduzir outras mulheres nesse Caminho.

O que eu não sabia

Conclusão instantânea: eu não sabia o que era amor ou intimidade. Conclusão da conclusão: tive que aprender.

A real é que a comida não é companheira coisa nenhuma. Ela é um grande peso na bagagem, isso sim.

Cardápio completo de sensações? Que isso… a comida não dá calafrios, não emociona, não surpreende, não faz a gente rir até a barriga doer, não provoca aquela vontade de apertar, de beijar, abraçar e amassar, nem aquelas outras vontades de brigar, de discordar, de cuidar que a gente só tem com quem a gente ama.

Não é nem de perto o que a gente realmente merece na vida. Será que realmente o melhor da vida é um prato de comida “proibida”? Será que é realmente esta a recompensa que a gente espera pelos nosso esforços?

A comida é monótona, previsível, repetitiva, limitada, pesada. Achar que é melhor isso do que um relacionamento real é como querer viver isolada na montanha, não é?!

Impossível comparar (mesmo que) a melhor comida do mundo com um beijo lento ou um orgasmo quente, sacana, esperado ou apaixonado. Conhecer o próprio corpo e viver nossa sexualidade é privilégio das mulheres adultas que somos ou podemos nos permitir ser.

Comer é bom sim, mas comida não tem movimento, não tem calor, não sorri, não abraça, não olha, não faz carinho. Também não provoca, não seduz, não se aproxima, não nos toca. 

Não surpreende, não conversa, não entende e não fala que tá ou que vai ficar tudo bem. O relacionamento com a comida é unilateral, é frio, vazio e machuca muito porque vem acompanhado de culpa, medo, vergonha, descontrole, frustração e tristeza. 

Dois planetas diferentes

Esses dois textos escritos por mulheres completamente diferentes: a Lígia de alguns anos atrás e a Lígia de hoje.

Aos 30 anos *aproximadamente*, eu despertei e percebi que tinha passado metade da minha vida no Jogo da Comida – CLIQUE AQUI PARA CONHECER, que eu era obcecada pelo meu peso e que meu objetivo de vida era… emagrecer. Eu fantasiava tanto o emagrecimento, que acreditava que minha vida seria absolutamente per-fei-ta quando eu fosse magra. Perfeita mesmo. Nenhum problema, nenhuma insegurança, nenhum imprevisto, nada desagradável ou desconfortável. Só alegria, como se a vida fosse uma passarela e eu ia passar por ela desfilando e apenas mostrando meu corpo.

Eu achava que todo sacrifício valia a pena pra chegar nesse lugar imaginário aí, tomava remédio pra emagrecer e achava que tudo era “pela saúde”. Que ingênua eu era.

E mesmo com esse desejo maluco e obcecado que me acompanhava da hora que eu acordava até o último pensamento do dia, existia um empecilho: meu amor por comida.

Quando comida é amor…

Então, eu achava mesmo que não existia nada melhor do que comer até descobrir que comida não é tuuuudo aquilo que eu achava que era, que comida não é amor, que eu não tinha nascido escrava da minha “fome”, mas que tinha sido condicionada ao Jogo da Comida.

Hoje eu sinto uma grande tristeza e uma vergonhinha de pensar que minha vida, meus sonhos e minha noção de amor já foram tão pequenos, mas também explorei e entendi o porquê – e sei o quanto tudo que descobri está looonge de força de vontade, low carb, coma menos e se exercite mais, apenas.

Pra todas nós, a comida se tornou um objeto de desejo porque foi proibida (glamourizada, gourmetizada e mais um monte de zadas que a gente nem imagina).

Comida virou fetiche. E não sei se você sabe, mas a definição de fetiche é perfeita, olha só: objeto a que se atribui poder sobrenatural ou mágico e se presta culto.

A comida – que deveria ser apenas nossa fonte de nutrição, energia e, eventualmente prazer, virou a moeda de troca, o passaporte oficial para a magreza e a beleza que na nossa cultura é o mesmo que ser valorizada, admirada, imbatível.

Quando eu descobri que eu não era uma boba-chata-feita-fracassada por não conseguir emagrecer e que na verdade, eu tinha me fechado para muitos relacionamentos e só sabia ter intimidade com a comida, descobri que minha compulsão alimentar era um desespero emocional. Um grande não saber sentir.

E mesmo tendo me proposto a sentir, já entendi que não é fácil mesmo não. É mais fácil fazer dieta, seguir cardápio, fracassar no excesso de pão do que no medo de ser vulnerável.

Como assim nós mulheres nos apaixonamos por comida?

Eu já dediquei muito tempo refletindo sobre isso.
Quando foi que nós passamos a achar comida melhor do que sexo?
Do que amor?
Do que conexão?
Do que cumplicidade?
Pois é… boa pergunta, né?!
Mas pensa só… em algum momento, nos fizeram acreditar que engordar era a pior coisa que poderia acontecer na nossa vida. Desta forma o pensamento que fica é: a gordura não é algo que você tem, ela você é. Nós não dizemos que “você tem a gordura”, nós dizemos, “você é gordo”.
Engordar é uma das maiores vergonhas que uma mulher pode passar. Ser gorda, na nossa sociedade, significa ser fracassada,

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