como assim, dona Cleo?

O peso da Cleo incomoda.

O fato de ela ter engordado e não estar se escondendo, não se mostrar envergonhada, desafia algo que as pessoas consideram verdades absolutas incontestáveis: "mulher tem que se cuidar, mulher tem que ser bonita, mulher tem que agradar". E, entre outras coisas, isso quer dizer:

MULHER TEM QUE SER MAGRA

Tem que se encaixar - ou estar tentando se encaixar - no padrão. 

Emagreça ou viva tentando ou como eu costumo pensar quase morra tentando porque quem vive na escravidão das dietas morre aos pouquinhos.

A Cleo engordou e não se desculpou. Ela não tentou justificar ou mostrar que já estava "correndo atrás do prejuízo" como todo mundo se acostumou a fazer.

Ela encarou, com uma coragem que eu só consigo admirar, manchetes absurdamente sensacionalistas e expôs grandes verdades que todo mundo esconde embaixo do tapete.

faz de conta que isso não aconteceu

A maioria das reportagens são rasas. Fazem parecer que o que aconteceu com a Cleo foi um problema isolado, uma doença que ela (só ela) está vivendo, está sendo tratada, que vai ser curada, que ela vai emagrecer e voltar vitoriosa - leia-se, magra, gostosona padrão - e tudo vai ficar bem de novo. A paz e a hipocrisia permanecem no reino das dietas.

Em algumas reportagens, insistem em perguntar o que ela está fazendo para "eliminar o peso adquirido nos últimos tempos", "voltar ao corpo normal", e "quais são as estratégias para lutar contra a compulsão alimentar".

As perguntas de sempre, né.

Ou seja, as pessoas continuam tratando o emagrecimento como se fossem apenas duas realidades extremas: ANTES e DEPOIS. Ponto A e ponto B. Corpo errado e corpo certo. Mulher feia e mulher bonita. Como se não existisse um processo nesse meio, uma ponte que liga um momento ao outro.

Então assim que engordam, as mulheres, via de regra, correm para emagrecer, rápido, urgente, pra ontem, a todo custo, nem param pra pensar

Não se fala seriamente sobre o processo.

Não se fala sobre as consequências de tantas dietas, os prejuízos para a saúde mental, o que acontece quando se emagrece rápido, como funciona O Jogo da Comida, a fome emocional, a própria compulsão alimentar e tantas outras coisas.

Pelo contrário.

Todas essas perguntas ANTESxDEPOIS da mídia são reflexo de como nós tratamos a relação das mulheres com o corpo e a comida: esteja magra ou emagrecendo rápido. 

"Engordou? Feche a boca.
É fácil, basta querer.
Não seja desleixada. Faça o que tem que ser feito.
Foco e os resultados vem".

É assim. Estupro emocional. Goela abaixo. Como a compulsão.

o grande tabu

E da parte dela, achei que ela falou sobre compulsão alimentar da forma mais clara que a dinâmica das entrevistas permitiu.

Já falei centenas de vezes que compulsão é tabu. E quando uma coisa é tabu, a gente nega, esconde, finge que não existe, reza pra passar, tenta acreditar que é um sonho e que aquilo não está acontecendo, camufla, disfarça...

Aí vem Cleo e diz claramente: engordei porque tenho compulsão alimentar.

E pra minha surpresa, ninguém entendeu ou explicou direitinho o que é compulsão alimentar. Na entrevista para o Léo Dias, ele pergunta: mas você come prato de pedreiro?

(E compulsão alimentar não é isso. A gente geralmente não tem compulsão com arroz, feijão, pepino, abacaxi, tomate... Aliás, vou publicar um texto amanhã sobre compulsão senão esse texto vai ficar grande demais. Volta aqui amanhã, tá?!)

Parecia que estavam falando de uma doença rara, distante, desconhecida, quando na verdade é a realidade de milhões de mulheres diariamente. Mulheres que também não entendem o que está acontecendo com elas mesmas. No próprio corpo. No corpo onde elas dormem e acordam todos os dias. O corpo que elas deveriam nutrir, cuidar e, principalmente, entender.

Mas não.

Tem que emagrecer, emagrecer, emagrecer. É a ditadura do emagrecer. É o vírus da mentalidade de dietas disfarçado de cuidados com a saúde e bem estar.

Alguém se preocupou, por exemplo, com A SAÚDE da Cleo? Criticaram a aparência e a  pressionaram com perguntas para que ela emagreça logo. Mas nenhuma das manchetes dizia: "Cleo engordou e a saúde dela está ótima". Não, não sabemos se ela está saudável. Só ela e os médicos dela sabem disso porque saúde não se mede com os olhos. Mas não vou me estender sobre essa questão de saúde porque já escrevi sobre isso aqui, aqui e aqui.

mas qual é o problema de emagrecer?

Não tem problema NENHUM em emagrecer, ser ou querer ser magra.

O problema são:
* os métodos que estamos usando para chegar lá;
* a forma como o corpo da mulher é tratado - tipo massinha de modelar;
* e as consequências disso para a nossa saúde mental;

Pouca gente percebeu, muita gente não quer e não vai perceber, mas a Cleo nos deu um presente ao abrir a oportunidade de debatermos tudo isso.

Ela engordou tentando emagrecer. Como aconteceu comigo e provavelmente já aconteceu com você. 

Foi de tanta pressão, de tanto restringir, tomar remédio, se cobrar para emagrecer, fazer restrição, fugir de comida, ter "foco, força, fé, força de vontade, autocontrole, fazer o que tem que ser feito, comer menos e se exercitar mais" e toda essa cartilha batida, desatualizada e ineficaz que ela desenvolveu compulsão alimentar.

Ela não foi a primeira, nem vai ser a última.

Certamente, muitas outras famosas já passaram por isso e não puderam/conseguiram se posicionar. Muitas mulheres anônimas se escondem, se depreciam, se machucam, se odeiam porque engordaram ou não conseguem emagrecer e isso tem a ver com você, comigo, com todas as mulheres que já existiram e com todas as que virão.

Eu não sei o que a Cleo aprendeu com tudo isso, mas ela nos ensinou que nós mulheres não somos só um ANTES e DEPOIS. E chega de perseguirmos isso ao custo da nosso própria vida, nossa felicidade e nossa saúde. Somos muitas coisas, entre elas, nosso corpo.

#eunãosouANTESeDEPOIS

Como eu disse essa semana no Instagram, o corpo da mulher não é enfeite, ornamento, exposição de arte, nem DECORAÇÃO no mundo. A Naomi Wolf escreveu isso no livro O Mito da Beleza na década de 90 e já passou da hora de aprendermos. Eu parei com o vírus da obsessão pelo corpo. Pare você. Compartilhe esse texto com alguém. Já estamos atrasadíssimas na mudança. A década mudou, vamos mudar junto.

Este texto não é sobre a vida da Cleo

Eu demorei pra publicar porque escrevi este texto com muito cuidado. A intenção não é julgar o caráter, a personalidade ou a história da Cleo - se bem que 14 minutos antes de publicar esse texto eu descobri que ela fez acompanhamento com a Mayra Cardi e ai, ai, ai, já me deu vontade de escrever outro texto! De qualquer forma, eu não a acompanho, nem a sigo nas redes sociais. Eu assisti e li o que achei sobre o recente ganho de peso dela e prestei atenção em como ela se posicionou.

Nós não sabemos o que é ser Cleo. Mesmo sendo figura pública e tendo crescido sob holofotes e "ah, ela já devia estar acostumada", ninguém está pronta para lidar com compulsão alimentar e aumento abrupto de peso. Vamos exercitar compaixão e tentar ficar no tema que é: nossa relação com o corpo e a comida é um tema de saúde pública. Não é uma questão isolada, individual de falta de força de vontade, preguiça ou sem vergonhice, nem falta de informação nutricional. É o vírus da mentalidade de dietas e é um problema coletivo. Precisamos, juntas, tratar sobre isso. A Cleo é só mais um exemplo disso.

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