Mas o que você come?

Recebo essa pergunta toda. santa. semana.

Se você entrar no meu Instagram ou Facebook, não vai encontrar fotos de comida. Talvez umas duas do Restaurante do meu irmão ou de um café da tarde com companhia boa. Mas é só. E nesses casos tem contexto e propósito, não é pra mostrar o prato, apenas.

E por que eu faço isso?

Honestamente? É uma forma de protesto.

A comida amada idolatrada salve, salve

Me parece que as pessoas se acostumaram com isso, acham normal pensar em comida o tempo todo e postar fotos do que se come acaba sendo uma manifestação disso.

Na minha opinião, saber o que uma pessoa come é tão irrelevante quanto saber a cor do sapato ou da calcinha dela. Irrelevante, aleatório, desnecessário, sem lógica.

“Oi, hoje tô de calcinha de algodão.”
“Dia de fio dental preto”.
“Hoje meu sutiã não tá combinando com minha calcinha”.
“Hoje é dia de lingerie branca”.


QUE QUE EU TERIA A VER COM ISSO?

E por que a gente posta foto de comida? Qual a importância disso pra vida das pessoas que te seguem nas redes sociais? De verdade, não acho que deveria ser “normal” e sempre me pergunto quando as pessoas vão perceber o que isso realmente significa.

Eu sei que comer é bom

Veja bem, eu entendo que as redes sociais servem pra gente postar as coisas boas, as que gostamos, pra registrar o que vivemos e o que queremos compartilhar com as pessoas.

E sim, comer é ótimo! Não é isso que estou questionando.

Também acho que cada dia mais restaurantes, cafés, sorveterias, etc, investem na aparência dos alimentos, mas veja bem…

O que realmente queremos mostrar quando postamos fotos de comida?

A moralização da comida

Não sei se você já ouviu falar disso, mas passamos a moralizar a comida, ou seja, dar um valor moral para os alimentos.

Tem os certos, bons, saudáveis, recomendados.

E os “maus” (as gordices, as jacadas, os vilões engordativos) que devem ser evitados, mas que geralmente são “deliciosos e proibidos”. Só por serem proibidos, já os desejamos mais ainda!

Por serem proibidos, distantes, “inatingíveis”, eles se tornam uma espécie de presente – teoricamente – raro, recompensas, compensações por… bom, basicamente por tudo que a pessoa escolher na cabeça dela.

E eu digo “teoricamente” porque no começo até é raro, mas depois de alguns anos de dietas, vem o comer escondido e a gente entra nO Jogo da Comida – clique aqui para entender O Jogo da Comida.

Moralizar a comida nos mostra que a foto de um prato gostoso, não é só a foto de um prato gostoso. É um grande EU POSSO, EU MEREÇO.

E a foto de um prato saudável é um grande “olha como eu tenho força de vontade, foco, fé, sou bem sucedida, linda, feliz, magra” – e se não sou magra estou no caminho de ser.

Olha como eu sou foda

Não são poucos os perfis de diário alimentar ou os de blogueiras e influenciadores fitness onde as pessoas postam tudo que comem pra provar…

…que tem foco,
…que “merecem”
ou, ainda, para… motivar.

Pois é. Motivar. Olha que coisa estranha. Comer que é uma coisa que nós fazemos todos os dias, várias vezes ao dia, e faremos para o resto da vida, algo que deveria ser normal como fazer xixi, respirar ou dormir precisa de… motivação?

“Motivação pra comer certo”.
Isso. Nem. Deveria. Existir.
Seria como postar fotos na cama dormindo, no banheiro ou respirando. Bi-zar-ro.

Mas foto de comida, as pessoas postam…

Além da idolatria por comida e da moralização – “olha como eu tenho força de vontade por comer tomate”, tem o lance das fotos de comida como penitência e testemunhas do esforço.

Culpa, comparação e compulsão

Como a gente acreditou nessa pegadinha de que postar foto é bonito e como a gente vê “todo mundo” fazendo, acabamos nos acostumando a ver, a prestar atenção, a se importar com o prato alheio.

(mais uma coisa bizarra com tanta coisa legal no mundo pra se preocupar!)

E aí, inevitavelmente, acabamos comparando nosso prato com o prato dos outros.

Pronto.

A gente vê alguém com um corpo mais magro postando foto do prato fit e já imaginamos que se comermos daquele jeito teremos o mesmo corpo.

E isso é a mesma coisa que dizer que se duas mulheres engravidarem, nascerá duas crianças idênticas. Nenhum corpo é igual e nunca vai ser.

Confessionário

Tem as fotos também que funcionam como escudo.

Porque assim, ó… ficou normal também uma superfiscalização do corpo e do prato alheio.

Nossa relação com a comida e com nosso corpo é algo muito íntimo. Muito. Só por isso já podemos dizer que não precisa de plateia, muito menos uma plateia bisbilhoteira-palpitadeira-chata-sem-noção que fica comentando e dando opinião não solicitada.

E aí acontece como o relato de uma aluna minha dO Caminho: “parece que as pessoas só olham se eu engordo ou emagreço, nunca todo o restante do que sou”.

Essa aluna tem acesso a mim, às alunas do grupo e aos recursos do curso. Mas e quem não tem?

Quem não tem segue na fila do emagrecimento (eu falo da fila do emagrecimento na aula 2 da Minissérie, clique aqui), querendo mostrar para os fiscais de corpo e de prato que estão se esforçando.

Postar foto é o confessionário, é o jeito de “confessar os pecados”, ganhar créditos (antecipar as glórias) e se mostrar em penitência: “sei que sou/estou gorda, mas estou me esforçando, olha quanta salada eu como”.

Comida purpurina

A gente não posta foto só porque comer é bom. A gente posta foto pra jogar algum jogo moral ou emocional.

Mais um deles é postar foto pra ganhar aceitação e atenção, já que depois de postar, ficamos checando o celular a cada cinco minutos pra ver quem curtiu – aplaudiu -, quem viu o quanto somos esforçadas, dedicadas, bem sucedidas, magras ou no caminho de ser.

E aí é uma mistura de ego, idolatria, sou foda, confessionário… depende da pessoa. O lance é que postar fotos nos faz sentir que pertencemos, que estamos “vivendo certo”.

(tem que fazer faculdade de direito, engenharia ou medicina, casar, ter filhos, casa, carro e postar foto de comida, quer dizer, comer direitinho)

Pertencemos a essa cultura das dietas e dos padrões de beleza irreais, que nos manipula e nos faz pensar que pra ser saudável tem que pensar em saúde o tempo todo e que se não se pesar todo dia vai virar obesa mórbida. E que o jeito certo de comer é de um jeito só, padrão pra todo mundo. TUDO EXAGERO.

Você não precisa postar fotos do seu prato

Observe o que te motiva a postar fotos de comida.

O que realmente te motiva?

Veja o quanto isso é realmente seu e o quanto você faz porque você está secretamente competindo ou querendo mostrar algo para os outros.

As redes sociais são pequenos RECORTES de vida.
Não é a vida toda da pessoa, não é a realidade, não são os perrengues, as compulsões escondidas, o arroz com ovo da correria.

A gente vê da vida do outro o que a pessoa permite e a gente mostra também o que bem entendemos, é verdade.

E que bom que temos escolha! Podemos escolher direcionar nossa atenção para coisas interessantes: música, espiritualidade, arte, viagens, autoconhecimento, relacionamentos mais verdadeiros, natureza, causas ambientais e humanitárias, mais atenção e menos celular pras crianças, mais leitura, Netflix, enfim… TANTAS OUTRAS COISAS. TANTA VIDA (tá vendo por que meu projeto chama Não é dieta, é VIDA?)

DISCLAIMER

Avisos:
Não, eu não acho que só comida que engorda é gostosa. Eu acho delicioso comer salada, manga, abobrinha, berinjela, morango, uva, lentilha, abacate, grão de bico, cenoura e mais um monte de coisa. Eu sempre falo pras minhas alunas “pensa, só abacaxi tem gosto, textura, cor, aparência de abacaxi, olha que maravilha!”.

Eu sou contra a moralização da comida e não classifico os alimentos em bons ou ruins, certos ou errados. Não acho que a força de vontade e o sucesso de alguém se mede pelo peso dela ou porque ela come.

Mesmo se você não fala inglês, dá pra entender o vídeo abaixo.

Clique aqui e inscreva-se no Programa Detox de Dietas.

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