Estudos indicam que a maioria das mulheres prefere ser magra do que muitas outras coisas boas da vida. Eu perdi as contas de quantas vezes ouvi “eu sei que vou ser feliz quando eu for magra”, “eu só me sinto de bem comigo mesma quando estou magra”, “não consigo me amar com esse corpo”.

A maior parte da minha vida eu acreditei que mudar meu corpo, mudaria minha vida. Eu tinha tanta certeza que o motivo de não ser feliz era por não usar manequim 38, que acreditava de verdade que quando meu peso desaparecesse, todas as feridas, rejeições e tristezas iriam embora junto.

Eu acreditava que mudando meu lado de fora, eu curaria o lado de dentro. Bobinha.

Imagina uma caixa de leite. Não importa o que você mudar na caixinha, – amassar, cortar as pontas, fazer furinhos – o conteúdo vai continuar sendo leite. Não vai virar suco de uva, não vai virar iogurte. Sempre vai ser leite. Mesmo sabendo disso, parece que a gente continua esperando que ao mudar a aparência, vamos mudar quem a gente é por dentro.

A ideia do emagrecimento é cultural, lucrativa e sedutora, eu sei. Mas ela é isso: uma ideia empacotada. A indústria de dietas lucra 60 bilhões de dólares ao ano vendendo produtos para emagrecimento que prometem felicidade. E quem tá ganhando toda essa grana não quer mudar isso. Pelo contrário. Eles fazem o marketing perfeito pra você acreditar que comprando os novos produtos, aparelhos e suplementos, você ganha felicidade, bem estar e saúde. Esse bombardeio midiático é constante, às vezes a gente nem se dá conta que estão nos vendendo alguma coisa.

Se, de repente, começassem a dizer que você precisa ter dois metros de altura pra ser feliz e começassem a vender produtos, alimentos e outros recursos para aumentar sua altura, contabilizando todos os benefícios de ser alta, todas as coisas que você conseguiria, veria e teria ao ser alta e, se você fosse exposta a esses argumentos por um certo tempo, de repente a ideia seria tão normal que você acreditaria e começaria a desejar muito ser alta e ter aquela vida maravilhosa exclusiva das pessoas altas.

Eu sei que essa ideia da altura parece ridícula contada assim, mas a busca frenética pelo emagrecimento + sua promessa de felicidade incondicional também é ridícula. Mas nós estamos tão dentro da ideia que não conseguimos perceber isso. É como se você virasse um peixe. Primeiro você percebe, depois já nem nota que está na água. Nós temos uma habilidade muito grande de nos adaptarmos. Mesmo às coisas mais malucas.

Maluco é pensar que uma coisa só é responsável pela felicidade. Felicidade é um estado subjetivo e acreditar que o tamanho do nosso corpo é a causa e, portanto, a cura da nossa insatisfação com a vida é errado e ilusório. Já passou da hora de desconstruir essa ideia de que ser magra representa ser amada, autoconfiante, segura e especial.

Fantasiar como vai ser a vida quando você finalmente for magra e depositar tantas expectativas nessa promessa faz você batalhar – e muito! – pra “chegar lá”. O chegar lá vai entre aspas porque ainda gente nunca chega lá, a gente sempre está insatisfeita, sempre acha que poderia estar, ser e fazer melhor.

Você adia seus outros sonhos, com a certeza de que vale a pena tudo isso pela alegria de ser magra. Então, finalmente, você chega lá, seu tamanho muda mas a insegurança não te abandona, seu namorado continua meio desligado, levantar pra ir pro trabalho ainda é um sacrifício, sua mãe ainda te enche o saco, você ainda sente muita vontade de comer chocolate, seus filhos ainda precisam da sua atenção, você ainda não tem toda grana que você queria ter. Você continua indo, vindo, comendo, dormindo, sonhando com uma vida diferente da atual e a única coisa que você fez pra ser feliz foi maltratar seu corpo com controle, restrição e críticas.

Eu já atendi uma pessoa que disse “Mentiram pra mim. Acreditei que minha vida seria incrível quando eu fosse magra, que eu seria feliz, me amaria e seria amada, mas não foi isso que aconteceu”. É claro que ela se sentia bem mais magra e mais leve, gostava de usar tamanhos menores de roupa, mas ela ainda sentia que tinha alguma coisa errada, tinha dificuldade de se valorizar, se amar e ainda se criticava muito. Ironicamente, com a frustração, ela comia.

Tá, então se não é pra fazer dieta, se ser magra não é a resposta pros seus problemas, o que fazer?

Seu relacionamento com alimentação e principalmente com seu corpo é um processo constante, não um ponto de chegada e, mais do que isso, é uma lição de vida. A forma como você come é a forma como você vive. Quando você permite que outras pessoas decidam o que você vai comer, você geralmente também permite que pessoas te digam como viver. Se você não se sente confortável no seu corpo, você provavelmente também não se sente confortável na sua vida. Está tudo relacionado.

Mesmo pessoas que perdem peso 5, 10 ou 20 vezes e sempre ganho de volta, continuam acreditando que na próxima vez vai ser diferente. Na próxima vez vai ser definitivo, na próxima vez a magreza vai trazer a promessa de felicidade, autovalorização e, claro, amor.  Está tudo no pacote. É uma viagem só de ida pra terra da felicidade. O único problema é que essa terra prometida não existe.

Agora a pergunta mais importante da sua vida: se é felicidade que você quer, por que não dedicar sua energia e atenção pra ser feliz, ao invés de focar no peso do seu corpo? Por que não olhar pra dentro de você? Em algum lugar aí dentro estão as respostar para o que pode te fazer feliz. Hoje.

Uma resposta em “Um Texto pra quem só se Sente Feliz quando Está Magra”

  1. Lembro de um dia que liguei pra uma amiga, de dentro de um restaurante, e falei: “estou tão deprimida que vou tomar um suco de laranja”… para mim, era a coisa mais proibida do mundo! Cheguei, em um ano inteiro, a tomar só dois copos de suco de laranja “porque engordava”. Como é bom poder tomar meu suco em paz hoje!

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