Há alguns dias, Rafa Brites postou uma foto dela na capa da BOA FORMA, com a barriga de fora, segurando seu bebê e escreveu um super texto dizendo que se arrependeu por ter posado. Confessa que ao posar, acreditava que estaria incentivando outras mães, mas que hoje percebe o quanto de frustração, competição e comparação isso pode ter gerado em outras mulheres.

Comenta da pressa que tantas mulheres que acabaram de se tornar mães tem em mostrar pro mundo que emagreceram rápido como se fosse um troféu, uma vitória.

Pós-parto fit

Eu lembro o quanto fiquei chocada quando descobri as hashtags #pospartoemforma #pospartofit #pospartomeucorpodevolta.

Já não basta o apocalipse #fit em tudo quanto é lugar – brigadeiro fit, Natal fit, Páscoa fit, festa junina fit – a indústria de dietas invadiu até nesse momento tão especial e sagrado?

Eu não entendia como o peso poderia ser prioridade em um momento tão extraordinário, intenso, novo, surpreendente como a maternidade?

Sim, as mudanças no corpo da mulher são muuuuuito grandes, mas o corpo é só uma das transformações que estão acontecendo, por que machuca tanto? Por que emagrecer e “ter o corpo de volta” parece mais importante do que estar bem, saudável emocional e fisicamente? Justamente por causa do tema central desse texto e do meu trabalho: a pressão que as mulheres sofrem para ter um corpo padrão e como esse corpo é uma espécie de licença-padrão-mágica-para-ser-feliz-e-ter-valor-no-mundo.

A voz das mulheres em um mundo que quer nos encolher

Mas a Rafa não é a primeira mulher em capas de revistas que tentam mostrar o quanto emagrecer é urgente (e por isso, a gente segue buscando esse emagrecimento rápido a qualquer custo), que é só uma questão de força de vontade e que deve ser uma prioridade na nossa vida, mesmo no pós-parto.
Nem será a última, por enquanto.
Mas ela tá sendo uma das primeiras a se posicionar sobre isso, a demonstrar humildade e admitir que não sabia na época, que percebe hoje que deveria ser diferente. E isso não é nada fácil.

Por ter o alcance de quase 2 milhões de pessoas, isso sim é a Girls’ Revolution da T-shirt dela na foto e tem que ser comemorado! Finalmente estamos falando cada vez mais sobre isso e há pouco tempo atrás, não se via esse tipo de debate.

Eu li nos comentários do Instagram dela e recebi inbox também quando compartilhei o post:“Mas pra ela é fácil, ela é magra” e primeiro: quem falou que é fácil? Já inventaram um medidor mágico da emoção dos outros?

Quem diz que é fácil, provavelmente está querendo dizer: “é mais fácil pra ela do que pra mim”, mas faz isso baseando-se nas suas próprias emoções. Não nas dela. Por isso, como saber se é fácil?

Pera, eu sei.

Existe uma ditadura – às vezes sutil, outras nem tanto – de que as mulheres precisam ter um corpo x para serem dignas. Digna quer dizer merecedora, apropriada, que merece admiração. Ter um corpo magro – sarado, curvilíneo, padrão – nos foi colocado como uma condição para sermos felizes, para sermos bonitas e também para sermos ouvidas.

Parece meio teoria da conspiração – eu já pensei isso -, mas forçar as mulheres a diminuir (encolher) seus corpos é uma forma de diminuir nossos discursos, nossa voz e nos impedir de ocuparmos nosso lugar.

E vai dizer se você – alguma vez ou muitas vezes – já não pensou exatamente assim: “quando eu emagrecer, eu vou…[acrescente aqui algo que você já deixou de fazer]”. Por mais que me doa muito admitir isso, é comum vermos mulheres magras sendo mais ouvidas do que aquelas que não são. E isso nem é mérito apenas delas, mas de toda essa construção que tô falando aqui.

Algumas vezes, ser magra é uma condição que nós mesmas nos impomos e acabamos não nos expressando por isso. Outras, é uma condição imposta por aqueles que ouvem – ou que não querem ouvir, né – que, mergulhados na mentalidade de dietas, também valorizam mais ‘a voz das mulheres dignas’.

Mas ela é magra, mas ela é gorda, mas ela é bonita

O texto da Rafa termina com “eu o amo. Cada pedacinho pois ele tem o mesmo propósito de todos os corpos: ser a morada de nossas almas”. Essa frase é maravilhosa, verdadeira, profunda, concordo 100% com ela, massssss, como alguém que passou anos buscando meu troféu da terra mágica do emagrecimento, eu também acreditava que só poderia amar e aceitar meu corpo se ele fosse bonito, leia-se magro.

Por isso, sei que quem não é magra, quem vive em guerra com a balança, quem está há anos tentando chegar lá, se sente frustrada, machucada, fracassada e acaba pensando:

“Se eu tivesse um corpo assim, também ia dizer isso”.

E não vamos começar na pequenez de “isso é recalque”, tá?!
Não tô dizendo que é certo pensar assim, mas rotular não ajuda em nada. Ao invés disso, é preciso tentar entender.
Vamos falar da rivalidade entre as mulheres e no quanto somos incentivadas a ver umas às outras como concorrentes. Nós estamos trei-na-das a competir, principalmente em relação a aparência.

Como o prêmio máximo dessa competição imaginária é ganho por mulheres que “chegam lá”, leia-se aquelas que tem a barriga chapada, que aparentemente não tem celulite e estrias, toda mulher que não se encaixa nesse dito padrão – a maioria – tem uma certa tendência a achar que sofre mais, que por não conseguir é inferior, já que na cultura de dietas, basta ser magra para ser feliz.

É quase como se disséssemos: “Rafa, você é magra, você não sofre. Só por ter este corpo, você é feliz”. Mas se só a magreza trouxesse a felicidade incondicional, todas as pessoas magras estariam andando por aí plenas e saltitantes, com todos os problemas resolvidos, mas não é isso que acontece, claro.

Além disso, não sei se você percebe, mas nessa frasezinha aí de cima, também invalida a voz dela.

Quando uma mulher gorda fala sobre aceitação: “ah, mas também… ela é gorda, fracassou, não conseguiu emagrecer, por isso fala de aceitação”.
Quando uma mulher magra fala de aceitação: “ah, mas pra ela é fácil”.

E assim perpetuamos a cultura de que para se ter valor e admiração na nossa sociedade, o corpo tem que ser perfeito. Como corpos perfeitos não existem, permanecemos no que eu chamo de a Corrida do Emagrecimento: estamos sempre correndo, mas nunca no pódio.

A verdadeira revolução

O que eu sei é que todas sofrem.

Diariamente, trabalho com mulheres casadas, solteiras, viúvas, separadas, loiras, morenas, jovens, mais velhas, mães, não mães, estudantes, profissionais de todas as áreas possíveis… e todas estão insatisfeitas com o corpo desde sempre.

Muitas estão hoje mais gordas do que quando fizeram a primeira dieta, olham fotos de alguns anos atrás e pensam: eu era tão linda, por que odiava tanto meu corpo?

Minha parte preferida do texto da Rafa é quando ela comenta da ironia de estar usando uma camiseta escrita “GIRLS REVOLUTION” e como ela mesma disse, “a revolução é sobre apoio, sobre sonoridade, sobre aproximação. É sobre aceitação”. 

Nossas definições de revolução feminina precisam ser atualizadas urgentemente. Ainda bem que já começou. Obrigada pelo texto, Rafa.

Texto completo reproduzido abaixo e publicado no Instagram da @rafabrites: no dia 17/05/2019.

Pois então, sabe essa capa ai?
Linda né?
Fofa né?
Uma revista de credibilidade. Muita informação bacana. Profissionais sérios.
Não quero julgar o veículo. Quero falar de mim.
Preciso confessar que eu me arrependi.
É tão louco como em pouco tempo mudamos tanto. Ha 2 anos quando eu fiz , juro do fundo do meu coração : achava que essa imagem incentivaria as recém mamães . Ei …Olha como podemos amamentar, recuperar o peso, a vida profissional…Bora fazer exercícios, aumentar a auto estima!
Que engano o meu. Me desculpem. Essa imagem gera uma frustração. Gera uma comparação. O número de mulheres que tem essa facilidade em perder peso é muito pequeno. O número de mulheres que saem de uma gravidez livres de estrias, peitos em pé é quase nulo. Que podem fazer drenagem linfática no pós parto… é irreal.
Essa imagem não motiva. Essa imagem deve ter feito muitas mães se sentirem um lixo.
Na minha camiseta esta escrito GiRLS REVOLUTION!!!
Caraca hoje entendo , a revolução é sobre apoio, sobre sonoridade, sobre aproximação. É sobre aceitação. Eu como uma influenciadora deveria ter percebido isso: Essa imagem não me aproxima de ninguém. Ela me afasta. A minha boa forma dessa imagem é meu sorriso e minha habilidade de encaixar meu filho ali naquele lugarzinho da minha cintura, que nos mães somos craques. É estar com a cabeça boa, ultrapassar o baby blues…
Claro se for a sua, perder os quilinhos. Legal. Vai la. Mas se não for a sua,isso não te faz uma mulher menos gostosa e linda. Importante cuidar da saúde. Pra mim é fundamental. Mas isso nao esta ligado a uma barriga chapada.
Eu vejo outras recém mães fazendo o que eu fiz, uma pressa em mostrar para o mundo… olha aqui uma semana depois to magra. Um mês depois tô de biquini perfeita. Agora eu vejo como isso pode ser nocivo graças ao trabalho de mulheres como a @garbindaiana @pretagil @mbottan entre outras. Obrigada por me incluírem nessa revolução através da consciência. Como é bom aprender e despertar!
Não tenho porquê esconder meu corpo, assim como não tenho o porquê me gabar dele. Eu o amo. Cada pedacinho pois ele tem o mesmo propósito de todos os corpos. Ser a morada de nossas almas.
#textou

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