Fiquei surpresa com a reação das pessoas quando compartilhei o post da Samara Felippo na minha fan page.

 

“Eu com uma barriga dessas estaria me achando magérrima”.
“Se eu tivesse uma barriga dessas eu também postava”.
“Pois é… que barriga?”
“As magras sempre ganham mais voz nesse processo todo”.

 

Eu estava toda feliz porque pensei que quando uma atriz com mais de 20 anos de carreira e centenas de milhares de seguidores fala do quanto ela sofreu com a cultura do corpo perfeito, ela representa não só ela mesma, mas muitas mulheres e até bem pouco tempo atrás nós não tínhamos essa representatividade.

 

“Mas pra ela é fácil”

E da minha alegria de ver o mundo mudando, eu demorei pra entender por que algumas pessoas questionaram o posicionamento (e o tamanho da barriga?) dela. É claro que eu reconheço que ela tem um corpo muito próximo do “padrão” e é exatamente aí que a gente volta a cometer grandes erros: achar que o corpo de alguém determina o valor ou importância dessa pessoa e o pior, o de que o corpo da mulher é público e que nós temos o direito de ficar falando dele.


O Preconceito dentro do Preconceito

É muita arrogância nossa querer julgar se o tamanho da barriga da Samara a “autoriza” ou não a falar sobre os padrões irreais de beleza. E enquanto a gente fica achando que é sobre o corpo dela, perdemos de vista o mais importante que é o que o post dela representa e ele representa sim um avanço. O que muita gente talvez não perceba é que nós estamos falando de feminismo, representatividade, minorias, gordofobia, privilégio e não da barriga da Samara Felippo.


Claro que a Samara não representa todas as mulheres do Brasil, mas representa milhares delas e isso é o que importa. Ela está falando de mulheres, feminismo, ditadura da beleza e a gente já sabe que o feminismo não é um só. Assim como as pessoas são diversas, existem muitos tipos diferentes de feminismo, com demandas e reivindicações específicas, mas em comum a luta pela igualdade e pela liberdade de ter o corpo que a gente tem.


Você não precisa ser gordo pra lutar contra a gordofobia


Quando eu comecei a trabalhar com amor próprio e aceitação do corpo, eu descobri coisas que nem imaginava. Uma delas é o quanto as pessoas criam regra de como não se deve criar regra. E essas regras variam: se é magra falando, ela não entende o que as gordas passam. Se é gorda falando, é gorda demais e tem que emagrecer pra falar ou é gorda e não tem outra escolha a não ser se aceitar mesmo. De um jeito ou de outro, a gente já sabe que existem sim diferentes níveis de privilégio e dificuldade, e isso pode ser considerado mas não deveria ser motivo para questionar a experiência e percepção de alguém.

 

Ser magra na nossa sociedade é um fator de privilégio, mesmo que a pessoa privilegiada não se sinta assim. Privilégio é um conjunto de vantagens sociais – algumas com as quais já nascemos – que nos permitem um maior acesso a recursos e poder social. Por exemplo, ser homem, branco, hétero, cis, sem deficiência, de classe média-alta e alguns outros mais (ou a combinação de algum desses) traz vantagens em algumas situações e todas nós somos afetadas de alguma forma por essa constelação social.

 

Mas ter “o privilégio” de ser magra não significa não ter problemas ou não enfrentar obstáculos. Significa admitir que vários obstáculos existem, mas que alguns específicos a pessoa magra não enfrenta.
E um desses obstáculos é a gordofobia.

 

Gordofobia é “uma forma de discriminação estruturada e disseminada nos mais variados contextos socioculturais, consistindo na desvalorização, estigmatização e hostilização de pessoas gordas e seus corpos”.

Uma pessoa magra pode não se sentir bonita no próprio corpo? Pode.

Pode viver em guerra com a comida? Pode.

Pode se olhar no espelho e se odiar? Também pode.

Isso é ruim e difícil? Muito.

 

Mas existe diferença entre se sentir mal no próprio corpo e ser vítima de gordofobia. As duas situações devem ser levadas a sério porque representam uma luta interna emocional que é real e significativa.

 

Mas quando alguém está próxima ao padrão, mas se sente gorda, a única pessoa preocupada com o corpo é a própria pessoa.
Quando uma pessoa gorda sofre em relação ao próprio corpo, ela sofre com as próprias emoções e também com o olhar, palavras e atitudes de outras pessoas que acham que ser magro é uma obrigação moral e ser gordo é errado e não saudável.

 

A diferença é que só a pessoa mais próxima do “padrão” odeia o próprio corpo. A sociedade não.


Reconhecer que o privilégio existe não invalida a mensagem


Se a gente sugere que a mensagem perde o significado porque o corpo da pessoa é próximo do padrão, nós estamos, de novo, nos achando no direito de falar do corpo das pessoas e ignoramos o contexto.


Eu, por exemplo, nunca tive medo de não passar em uma catraca, nunca entrei em uma loja com medo de não encontrar roupas do meu tamanho, nunca me preocupei se uma cadeira aguentaria ou não o meu peso.


Eu sempre tive vergonha de comer em público mas não posso dizer que sofri com olhares de reprovação de outras pessoas por estar comendo uma coxinha. Nunca fui em um médico que ignorou totalmente tudo o que eu dissesse e me respondesse apenas “emagreça”.

 

Eu nunca sofri discriminação por ser gorda, mas eu não me lembro de um dia sequer dos meus 16 aos 32 anos em que eu não pensasse: “estou gorda, preciso emagrecer” e isso me fez sofrer muito, perder muito e deixar de viver muitas coisas.


Mudar dá medo
Mudar deixa as pessoas com medo. E o medo nos faz criar argumentos irracionais pra resistir à mudança, mas a consciência, a reflexão e o debate são essenciais para a transformação. A partir daí, cada uma de nós vai tomar decisões e começar a criar exemplos, referências e conteúdos que vão – ou não – acelerar os processos de mudança.

 

Em 1990, a escritora Naomi Wolf, escreveu em seu livro “O Mito da Beleza – Como as Imagens de Beleza são usadas contra as mulheres” que “uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão pela beleza feminina, mas uma obsessão pela obediência feminina. Fazer dieta é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana é mais fácil de ser controlada”.

 

O argumento da autora é que na medida que as mulheres ganharam poder social, econômico e político nas últimas décadas, a pressão social para atingir padrões irreais de beleza também aumentou. Manter as mulheres distraídas na busca pela beleza é uma forma de silenciar e controlar.

 

Manter as mulheres umas contra as outras falando dos corpos umas das outras, então…

Mais uma vez, não tem a ver com o tamanho da barriga da Samara Felippo ou de qualquer outra mulher que comece – ou que esteja – despertando para a cultura do “corpo perfeito”.


Tem a ver com a importância de se disseminar e viver essa mensagem.

Então será que “com uma barriga dessas” nós vamos autorizar a Samara a mostrar para mais mulheres que elas tem o direito de ter o que corpo que tem? Claro que vamos.

 

Com essa e com qualquer barriga porque o movimento #bodypositive é exatamente sobre isso: encorajar as pessoas a mudar a relação que tem com o próprio corpo para melhorar a autoestima, o bem estar e a saúde física, mental e emocional. Esse movimento nasceu do sofrimento das pessoas que não se encaixam nos padrões de beleza pré-estabelecidos pela mídia – ou seja, a maioria, já que “o padrão” comporta apenas 2% da população.

 

Eu não sei se eu sofri mais do que a Samara ou menos do que uma mulher que sofre gordofobia no dia a dia porque eu não acho que dá pra fazer um “ranking” de sofrimento interno com o corpo. Magra ou gorda, todas as mulheres são reais e sofrem – silenciosamente até pouquíssimo tempo atrás – e que toda manifestação pró autoaceitação é válida e necessária. Independente do tamanho da barriga de quem fala.

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