A ironia de viajar é que mesmo explorando culturas diferentes, comidas diferentes, pessoas diferentes, e no final descobrimos que todos nós somos muito parecidos. Pobre, rico, famoso, africano, europeu, asiático, latino, todos nós jogamos o mesmo jogo da vida. No final do dia, todos nós queremos amor, reconhecimento, respeito e segurança. Somos todos humanos.

Eu estava sozinha, as duas mãos no volante e quase 1000 km pela frente.


Por anos, sonhei em pegar um avião e viajar pelo mundo. Eu tinha fantasiado esse momento de tantas formas diferentes que nem conseguia acreditar no quanto eu tava leve e tranquila agora que eu estava finalmente vivendo o sonho.


Nos dias anteriores, tinha dado um jeito de vender todos os móveis de um apartamento pequeno em Foz do Iguaçu, doei muitas roupas, calçados, livros, panelas e talheres, coloquei o que queria no carro e estava indo pra Floripa.

 

Aluguei o primeiro de uma série de apartamentos do Airbnb (salve, Airbnb!) e já me sentia uma mulher diferente, uma Lígia que não parecia a Lígia que eu tinha sido nos 33 anos anteriores. Parecia que eu tinha passado muito tempo de olhos fechados ou olhando pra uma direção só e agora estava vendo tanta coisa nova que precisava manter os olhos bem abertos, muito mais que o normal porque a vida tinha um ar de novidade e imprevisibilidade.


Ser nômade digital é um daqueles sonhos que a gente tem, mas acha que é impossível, sabe?! Eu já tinha entrado no digital e agora a parte do nômade tava resolvida também.


Meu computador, celular e um tripé era tudo que eu precisava para trabalhar. Emocionalmente, precisava de 3 “-dades”: sinceridade, criatividade e vulnerabilidade. Podia dar aula de qualquer lugar que tivesse internet e minha rotina de trabalho era criar conteúdo para seguidoras do Brasil todinho sobre o que mais me interessou na maior parte da minha vida e sobre o que eu falo com muita facilidade e segurança: a obsessão das mulheres por dietas, a dificuldade de emagrecer e manter o peso definitivamente.


Depois de alguns meses em Floripa, comprei uma passagem só de ida para os Estados Unidos e estava realizando mais um sonho antigo. Sozinha, sem roteiro, sem pressa, a ideia era acordar e decidir o que ia fazer, onde ia passear e onde ia trabalhar.


Eu sempre fiquei bem sozinha. Aos 15 anos viajei sozinha pra Alemanha, aos 20 não me importava de ir ao cinema desacompanhada e cheguei muitas vezes sozinha na balada.


Mas agora era diferente e aprendi muitas coisas sendo minha própria companheira de viagem.

Aqui estão meus 10 maiores aprendizados:

1. É maravilhoso estar sozinha. É a liberdade no nível máximo. Sozinha dá pra escolher o que fazer, que horas ir, onde comer, com quem ir, quando voltar. Dá pra mudar de ideia sem negociação, apressar, desacelerar, parar. Dá pra escolher se socializar ou não, dá pra se reinventar sem precisar se explicar e dá pra experimentar o peso do julgamento de pessoas próximas. Sozinha a gente conhece lados de nós mesmas que nem imaginamos que existisse.

2. É difícil estar sozinha. Por mais que seja bom estar acompanhada de si mesma, tem horas que dá vontade de estar com alguém, de comentar o que viu, o que está acontecendo ao redor, concordar, conversar, de ter outra pessoa pra ajudar a tomar decisões, fazer reservas e cuidar da gente. Sim, dá pra buscar companhia em outras pessoas que também estão viajando ou pessoas da própria cidade, mas tem hora que dá saudade das nossas próprias pessoas, sabe?! Ainda bem que hoje em dia tem WhatsApp e FaceTime.

3. Dá pra viver com muito pouco. Na primeira viagem, levei mais de 30kgs de bagagem e sofri subindo e descendo de ônibus, trens e carros, subindo escadas de hostels ou estações de metrô. Eu acabava pedindo um Uber até mesmo pra uma caminhadinha de poucas quadras. Nas viagens seguintes, fui aprendendo a fazer malas mais inteligentes e já cheguei a viajar por meses com apenas 17kgs – e isso é quase um milagre! 
A mudança de viver em uma casa, pra viver com apenas uma mala e uma mochila me ensinou muita coisa, a principal delas é perceber o que realmente importa – e geralmente é muito menos do que acreditamos.

4. A gente aprende o que realmente é essencial. Todos os conceitos sobre bem estar e sucesso que a gente aprende desde sempre são redefinidos quando viajamos sozinhas.

Coisas simples como uma boa noite de sono, um banho quente e uma caminha cheirosa, ouvir histórias de outros viajantes sobre amor, família, saudade, aventura e comer uma comida gostosa e saudável tem um valor bem diferente.

Nossa mente se abre, o mindset muda e acabamos nos relacionando com mais presença e significado. Outra coisa, por mais que eu quisesse comprar um livro, um sapato ou uma bolsa, lembrar do peso extra a carregar nas viagens me fazia mudar de ideia rapidinho.

5. É mais fácil se reinventar. No dia a dia entramos facilmente no piloto automático, em condicionamentos e hábitos que repetimos automaticamente, sem pensar, sem perceber.

Viajando é mais fácil sair de padrões e regras antigas que a gente repete sem refletir.

Ficamos mais presentes, conscientes, atentas, aprendemos e praticamos mais as coisas que realmente queremos e que são importantes pra nós, sem medo de julgamentos.

6. A gente se torna – ainda mais – nosso próprio lar. Viajar sozinha reforçou o quanto meu corpo é meu lugar no mundo e como é possível encontrar paz, calma, autonomia independente do local, tempo ou outras condições externas.

Eu não tenho dúvida de que fiquei mais íntima de mim mesma, me apoiei mais, fiquei mais segura e me permiti experimentar muito mais.

E isso me transformou profundamente.

7. Somos constantemente lembradas que tem muito mundo no mundo. Tem tanta coisa pra aprender, pra ver, viver, fazer…

A gente percebe que a vida é muito maior do que aquilo que geralmente percebemos e que não dá pra perder tempo.

Sem contar as tantas pessoas e histórias diferentes que eu acabei conhecendo. Coisas que nem imaginava que existisse. O ruim disso é que depois fica bem difícil conviver com pessoas que não tem essa visão..

8. Paramos de adiar a felicidade. Eu sei que parece que viver viajando e ter toda essa liberdade é uma vida “perfeita”, mas não é.

Coisas que dariam errado aqui também podem dar errado por lá. Acontece que viajando sozinha, fico mais atenta, mais curiosa e acabo vendo prazer em coisas que passam despercebidas no dia a dia.

Viajar me fez aprender muito sobre a vida, sobre mim e sobre a idealização da felicidade e do sucesso

9. A viagem tem a sua cara. Viajando sozinha, eu é que tomava todas as decisões e eu sabia que eu era responsável pelas coisas que davam certo e por aquelas que não saíam exatamente como eu esperava.

Não dava mais pra dizer que tal coisa aconteceu assim por causa de fulano, ou por isso ou por aquilo. É tudo escolha e até não escolher é uma escolha. Taí uma grande lição sobre expectativa, autorresponsabilidade e realização

10. Mas a maior lição de todas mesma é essa: aonde quer que você vá, lá você estará. Eu já tinha uma noção disso, mas viajando ficou ainda mais claro e evidente.

Quando tudo muda, ambiente, pessoas, rotina, eu ainda percebia as minhas características no cenário novo, entende?!

A gente se leva pra onde a gente vai.

Leva hábitos, medos, pensamentos. As coisas que são realmente importantes pra nós, acabamos fazendo independente do lugar e da situação.

Quando estava em Nova York, fiquei hospedada em um hostel a uma estação de metrô de Manhatan, era verão e a primeira coisa que eu pensei foi em ir ao Central Park correr, coisa que eu também fazia aqui no Brasil (correr, não ir ao Central Park haha). Eu fiquei mal-humorada em San Francisco e algumas estratégias de negócio deram errado quando eu tava em Los Angeles e eu fiquei p*** da vida. Todas as emoções que eu tinha aqui, eu também tinha lá

Viajar sozinha me fez mais resiliente, menos ansiosa, mais corajosa, segura, bem-humorada e feliz. Me fez valorizar mais minha família, minhas amizades, meu carro, um bom chuveiro e uma comidinha caseira. Continuo empreendendo no mundo digital viajando só pelo Brasil, mas logo, logo volto pras minhas aventuras internacionais

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