"Parecia que se eu perdesse o 
medo de engordar, iria engordar". 

Era assim que eu pensava. Como se o medo de engordar fosse minha proteção, minha garantia, enquanto o medo existisse, eu não comeriaO problema era que isso não era verdade.

Mesmo querendo emagrecer, eu comia além do que precisava.

Mesmo conhecendo toda a cartilha do emagrecimento de trás pra frente, eu não conseguia ter o desejado resultado definitivo, o felizes-para-sempre-do-emagrecimento.

Mesmo que o maior desejo, maior sonho e maior meta da minha vida fosse emagrecer, ainda assim eu comia o que não devia e, claro, sentia culpa. Não existia promessa, medo de engordar ou conhecimento sobre informações nutricionais que me segurasse em certos momentos. Quando minha compulsão gritava, nada me segurava.

"Quando minha compulsão gritava, 
nada me segurava". 

Mas voltando ao medo de engordar…

O que eu não percebia era que para sustentar aquele medo, eu me mantinha em constante estado de vigilância que me gerava uma ansiedade enorme e, em vários momentos, buscava justamente a comida para aliviar essa pressão toda. Hoje parece óbvio: o medo de engordar não ajuda a emagrecer. Bem pelo contrário: O MEDO DE ENGORDAR ENGORDA porque só aumenta a compulsão alimentar, o efeito sanfona, a ansiedade e atrapalha de todas as formas possíveis nossa relação com nosso corpo e a comida.

O medo de engordar começou a nos adoecer...

Medo de engordar  também chamado de pocrescofobia  é o medo de ser ou de se tornar gorda.

No final da década de 80 (não por coincidência quando o acesso a alimentos industrializados começou a aumentar), a obesidade começou a ser vista como algo não saudável e, por isso, um problema a ser tratado pela medicina. Paralelamente, o corpo magro começou a ser reconhecido como sinônimo de beleza, saúde, força de vontade e, consequentemente mais desejável

Rapidinho, pessoas gordas, principalmente as mulheres, começaram a sofrer todo tipo de cobrança para se encaixar em um formato de corpo dito padrão negando nossa natureza e a diversidade do corpo humano. 

Pronto, foi declarada uma verdadeira guerra. Uma guerra das mulheres contra seu próprio corpo. Uma guerra alimentada pela indústria das dietas e da beleza, um vale-tudo a perder de vista, fantasiado de "saúde" e bem estar, mas que na verdade esconde uma triste obsessão pela aparência.

"Eu faço qualquer coisa pra emagrecer"

Já ouvi essa frase um montão de vezes. Geralmente de mulheres que já fizeram, de fato, muitas coisas pra emagrecer. Desde passar dias fazendo dietas malucas, comendo poucos tipos de alimentos até tomar remédios para inibir a fome ou fazer cirurgias e procedimentos estéticos sem encontrar satisfação real.

Tem também quem já passou dias só tomando sucos, shakes e sopas para, logo em seguida, comer descontroladamente, recuperar tudo e às vezes mais um pouco. Cada episódio desse, além de demandar muita energia, tempo e dinheiro, não traz resultados definitivos, aumenta muito o medo de engordar e é mais uma frustração no extrato das dietas

Ser saudável ficou complicado e cheio de regras. As pessoas passaram a ignorar a real saúde física, mental e emocional, e passaram a considerar saúde apenas o que se come.

Pra piorar, ser saudável foi reduzido e passou a ser confundido com uma "ferramenta de emagrecimento". News flash: nosso corpo e os alimentos não "servem" só para engordar e emagrecer...

E tem também nossa relação com a atividade física! Um recurso tão incrível para o ser humano se manter saudável de verdade, regular o humor, aumentar a energia, dormir melhor e tantos outros benefícios, foi reduzido a uma obrigação, um ringue de competição e um modo de modelar o corpo.

Uma grande confusão, inversão de valores e prioridades que gera muita frustração, ansiedade, obsessão por comida e pelo peso, medo de engordar e, paradoxalmente, os números da obesidade, de pessoas insatisfeitas com o próprio corpo e precisando emagrecer por questões reais de saúde só aumentam.

(questões reais de saúde é diferente de desejo de emagrecer por causa da aparência disfarçado de "é por causa da saúde". Não que exista algum problema em querer emagrecer. O problema é o custo que isso tem para a saúde mental e emocional).

"Vou ali emagrecer e já volto..."

A falaciosa onda de emagrecimento fácil, rápido e definitivo, fez a gente acreditar que de fato existe isso - MAS NÃO EXISTE, tá?!
Até gravei um vídeo sobre isso:

Quando não conseguimos - e em regra, a maioria das pessoas não consegue - engordamos. Mais um ponto para o medo de engordar. Ao invés de reconhecermos isso como a questão complexa que é, refletirmos sobre o modelo de sociedade, o ambiente alimentar, a verticalização em muitos atendimentos nutricionais, seguimos tratando essa questão como se fosse individual, falta de força de vontade, sem vergonhice, preguiça e muitas outras bobagens.

Seguir acreditando que emagrecer é fácil e rápido, mantém as mulheres caladas, escondidas e preocupadas com suas marmitas como se fossem temporárias e "logo, logo o felizes-para-sempre-do-emagrecimento vem e tudo valerá a pena". Mas até lá, ao invés de autocuidado, temos muita ameaça, ridicularização e, claro, medo de engordar

Como se a rejeição e o ódio ao próprio corpo fossem uma excelente maneira de mudar de hábitos...

Como se esse jogo de compensação e punição realmente funcionasse...

Como se nosso corpo de mulher servisse apenas para ser bonito e isso significasse que estamos falhando como seres humanos.

É claro que você tem medo de engordar!

Enquanto as estratégias de promoção de hábitos saudáveis forem atreladas a sofrimento, privação, terrorismo, foco em resultados rápidos, estaremos adoecendo emocionalmente por causa da aparência.

Será mesmo que vale a pena viver em vigilância e preocupação constante com comida sem ter resultados definitivos? 

"Se não estivesse o tempo todo pensando
em dieta e no que eu não podia comer,
iria engordar descontroladamente".

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *